segunda-feira, 26 de julho de 2010
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
A Canção e a Sombra
Nessa hora, eu já estava encolhido no banco de trás, as mãos juntas apertadas entre os joelhos, os olhos bem abertos e apenas um silêncio em redor, que nem chegava a ser silêncio, porque havia um zumbido, e era como se o ar tivesse se concentrado e o som não pudesse se mover, e eu apenas visse os dois à minha frente, lentos.
De repente, o som voltou. E isso se deu quando meu pai freou o carro muito brusco. Se ela continuasse a querer defender aquele doente, ele dava meia-volta e a gente ia para casa. Aí minha mãe recostou-se no assento, acendeu o cigarro, deu uma baforada, olhou para a frente e, tentando acalmar-se, disse que por favor ele continuasse, a mãe dela estava esperando, e nós precisávamos ir.
Mãe, quero fazer xixi, eu falei. E ela voltou-se para mim e disse que eu esperasse um pouco. Meu pai mordeu o lábio inferior, eu vi pelo espelho. E vi também seus olhos, que não sustentaram os meus. Já estamos chegando, ele disse, abrandada a voz. E ligou o automóvel.
Ao lado da estrada, uma fila de árvores desnudas cercava um terreno. Fascinei-me por elas, que espetavam o ar desesperadas. Em um ponto ou outro podiam-se ver algumas folhas que resistiam ao calor. Elas estão mortas?, perguntei. Quem está morta?!, disse minha mãe. As árvores, eu respondi. E ela me falou que não, que era aquilo mesmo, na primavera estariam floridas. É, na primavera, concordou o meu pai. Que árvore é essa? Mulungu, disse minha mãe. E tentei imaginar como seriam os mulungus floridos. Mas não havia qualquer nitidez; se um deles começava a se cobrir de folhas e flores, logo retornava a imagem seca e desgrenhada. E eles eram bonitos.
Fiquei contente quando meus pais responderam que elas não estavam mortas, que floresciam na primavera. Nem tanto por causa das árvores, importando-me mais eles terem-se acalmado.
Eu quis dormir, mas vi um rio que surgiu repentino, muito fino, ao lado dos mulungus. Não dava para ver se corria, ou se andava, mas antes me parecia uma superfície parada, um espelho acompanhando a cerca morta-viva. Na escola eu havia aprendido que os rios correm. E agora me surgia aquele tão calmo. Comecei a rir, já me preparando para gozar da cara da professora, mas engoli o riso: num ponto, o espelho se estilhaçou de raiva ou de pânico. Fez uma curva e passou por entre as árvores, desaparecendo numa depressão. Ainda olhei para trás, mas não consegui ver aonde ia dar. Tive medo e resolvi que o melhor agora seria realmente dormir. Fechei os olhos com força, deitei-me estirado no banco e comecei a contar carneirinhos que logo se transformaram em mulungus de braços estendidos e cabeleira elétrica, correndo atrás do carro com as bocas abertas. Adormeci.
A casa era imponente. As portas eram altas; e as janelas, largas, todas abertas, com exceção de uma com tábuas pregadas sobre ela. No alpendre, a que tínhamos acesso por uns poucos degraus, algumas cadeiras estavam espalhadas de frente para os morros, nessa manhã encobertos de neblina. Vai chover, disse minha vó assim que chegamos. E minha mãe falou, num tom saudoso, neblina baixa, sol que racha, neblina na serra, chuva na terra. Minha vó beijou-a, beijou-me e apertou a mão de meu pai, dizendo para entrarmos.
Sentávamo-nos à mesa, quando se ouviu um grito. Meu pai baixou a cabeça, apoiando a testa com uma das mãos. Minha mãe olhou para minha vó, que disse, preocupada, está cada vez pior.
Quem está pior?, eu ia perguntando, quando uma voz muito fina deu três gritos e começou a cantar o que não consegui entender, parecendo-me apenas uma canção que poderia ser alegre, não fosse o tom esganiçado, a voz sufocada. Quem é, mãe?, perguntei. E ela deu dois tapinhas na minha mão, dizendo a curiosidade matou o gato, não era nada demais, eu queria fazer o favor de comer? Deu os tapinhas e olhou severa para o meu pai, que, eu percebi, ia falar alguma coisa, mas levantou-se, procurando o cigarro nos bolsos da calça. A vó também se levantou. E pela forma como saiu eu pensei que não queria cruzar com ela quando dobrasse o corredor, porque saiu enérgica e, mesmo estando ela de costas, pude perceber como deveria estar o seu rosto, os olhos diminuídos e os dentes à mostra. Não esquecer o nariz, que devia tremer. Uma vez a vira assim quando, em nossa casa, começou a discutir com meu pai. Não vira mais porque minha mãe me levara para a porta, dizendo para eu ir brincar. O que aceitei de pronto, largando o livro na mesa, eu estava estudando.
O corredor era estreito e tinha portas dos dois lados. Ouvi uma delas ranger, certamente quando a vó a abrira, para ranger de novo ao ser fechada. Coma o cuscuz, meu amor, está uma delícia, disse minha mãe. E eu comecei a comer, mas não pude esquecer os gritos, misturando-se agora aos mulungus que, na continuação do sonho de quando eu dormi no carro, tinham me agarrado e jogado no rio, que se movia lento comigo dentro dele, congelado, até desaparecer no abismo.
Após o café, tive sono e fui para o quarto. O corredor era comprido, as portas imensas; e as tábuas do piso rangiam. Meu avô — a vó contava isto pela milésima vez — inventara de colocar tacos no corredor havia uns dois anos, pouco antes de morrer. Era para ficar atento ao que acontecesse, nada podia lhe escapar; e não escapava: era tocar as tábuas, mesmo de passo leve, e ouvir o piso responder como se recebesse um intruso.
Fui ao quarto e dormi até me acordarem para o almoço. Minha mãe chamou-me de come-dorme. Onde se vira aquilo de ir viajar, sair de casa para visitar a avó, fugir da cidade e, no sítio, passar a manhã na cama? Iríamos embora no outro dia pela manhã. Eu não me lembrava?
Logo pela manhã voltaríamos para casa, porque meu pai tinha negócio importantíssimo para tratar. Sempre tinha esse negócio importantíssimo; todas as vezes em que viajávamos era a mesma coisa. Mas agora nem me preocupava tanto ir embora ou perder a manhã: tinha sono.
Levantei-me e fui almoçar. À mesa, vi meu pai trocar olhares com minha mãe, que olhou para minha vó como se pedisse ajuda. Elas se levantaram, chamaram o meu pai, e eu já ia me levantar, quando disseram, uns com palavras, outros com gestos, que eu continuasse comendo, ia esfriar.
A de vocês também, eu falei. E meu pai já ia se aproximar de mim, quando minha mãe disse para ele me deixar em paz.
Vai passear, a vó disse. Pra onde?, eu perguntei. Vai tirar manga do pé, ela me disse. E eu fui, sem vontade. Queria ficar na casa; durante o almoço, enquanto engolia a pulso a galinha de capoeira, ouvira, durante a conversa deles, a mesma canção angustiada da manhã. E não tinha agora vontade de sair, curioso para saber de quem era aquele som.
Peguei algumas mangas e voltei rapidamente. No quarto, deitando-me ao lado de minha mãe, que descansava do almoço, perguntei quem era que cantava tanto e não aparecia. E por que aquela janela tinha as tábuas pregadas nela.
É sua tia, meu filho; ela está louca.
Louca?
Louca.
Passei a tarde inteira tentando imaginar a tia louca. Como seria uma tia louca? E deitado na cama, olhando o teto, formou-se em minha mente uma mulher de rosto deformado e cabeleira desgrenhada como os mulungus, correndo excitada, as mãos trêmulas.
Após o jantar, havíamos comido paca e arroz de leite, eu adorava arroz de leite, fomos para o alpendre ouvir as histórias da minha vó, umas de mal-assombro, outras de fadas azuladas. Impressionou-me a da onça que virou cerca e, depois, pneu de caminhão. Pneu de caminhão? É, pneu de caminhão, disse a vó. Porque a onça era esperta e se disfarçava do que queria, cheia de artifícios para conseguir agarrar a presa que era o dono da fazenda, que tentava atravessar sua propriedade, mas havia-se deparado com a danada, um enorme pneu escondendo os dentes longos e finos como dois punhais. Tudo verdade!, a vó disse. E eu falei acredito, acredito, vó. E ria. E ela me olhava com a cara séria.
Pedi para contar uma história. E falei de uma floresta inteira de mulungus de copa desnuda, o solo úmido, de ervas subindo pelos troncos e enlaçando-os, o sol passando em réstias pelos galhos, lançando sobre o chão uma algazarra de traços.
Mas não acontece nada nessa história?, perguntaram. E eu falei que estava acontecendo a floresta, e o chão, e o sol jogando as listras no chão. A história era a floresta parada.
Disseram que não tinha graça aquela história. E depois disseram que era bonitinha, era linda, mas estava na hora de eu ir para a cama. Minha vó me beijou, minha mãe me deu um tapa no bumbum e meu pai piscou para mim dizendo que eu fosse dormir.
Já na soleira da porta, voltei-me e disse que alguém jogou um fósforo e a floresta pegou fogo. Minha vó perguntou como podia aquilo se não havia ninguém por lá. E eu falei que a pessoa estava escondida, só que a gente não via, não sabia. Até o fogo aparecer.
Fui para o quarto, mas não tinha sono. Fiquei embolando na cama, esperando o pai e a mãe, que chegaram bem depois — eu acho que foi bem depois, porque o tempo demorou a passar, e eu pude observar o quarto na penumbra, um jarro sobre a máquina de costura, enfeixando flores, duas me chamando a atenção: um lírio e uma outra que era muitas, florinhas amarelas reunindo-se em cachos, mínimas e mínimos espalhando-se no verde. Cheirei-as. Tão bonitas que não precisam ser perfumadas, pensei sobre as pequenas, e tão cheirosa e tão amarga, disse ao morder o lírio, engolindo uma das pétalas. Meus pais entraram no quarto e disseram que precisavam sair, uma senhora havia morrido na fazenda vizinha, e eles tinham de ir para o velório, iriam todos, mas eu não me preocupasse, um dos meninos do caseiro ficaria na casa até voltarem. Se eu precisasse de alguma coisa, poderia falar.
Saíram, o tempo ficou mais lento, fui ao banheiro, vi o menino adormecido na rede, voltei ao quarto, deitei-me olhando para o jarro, lembrei-me das flores amarelas de beleza sem perfume e do lírio travoso, e comecei a ter sono, já fechando os olhos, quando ouvi uma música suave, pontuada como se alguém naquele momento estivesse criando uma dança, tornando uma única coisa o corpo e a melodia.
Olhei para o alto, aguçando o ouvido, e a música se tornou mais próxima. Era a mesma voz do outro dia; era “a tia louca”. Mas não cantava esganiçada, embora se pudesse perceber a mesma agonia no ritmo arrastado, sem altos, um canto triste, um lamento. Laa-lá-lá... Laa-lá-lá. Laa-lá-lá... Laa-lá-lá. Lá-a-a-lá-lá. Lá-a-a-lá-lá. Lá-a-a-lá-lá. Lá-a-a-lá-lá. Lá-lá-ri-lá... Lá-lá-ri-lá... Lá-lá-ri-lá, lá-ri-lá, lá-lá. Lá-lá-ri-lá, lá-ri-lá, lá-lá. Lá-a-a-a-aa... lá-a-a-a-aa... Lá-ri-lá... Lá-ri-lá... Uhn-uhn-uhn-uhn-uhn... Uhn-uhn-uhn-uhn-uhn... Lá-lá-lá-lalá... Lá-lá-lá-lalá...
Levantei-me, o menino ainda dormia, e fui até o quarto da tia, encostando a cara na porta. Desequilibrei-me e pisei forte no piso de taco, fazendo barulho. A música parou. Quem é?, perguntou um sussurro, abafado como se tivesse que atravessar paredes e estofos até chegar a mim. Quem é?
Fiquei em silêncio. E assustei-me quando, após ouvir um ruído de algo arrastando-se, deram três toques leves na porta. Repetiram-nos, agora bem pausados, como se sussurando-os, para logo vir a pergunta: Tum... tum... Tum... – Quem é?
Balbuciando, eu disse que não era ninguém.
Como não pode ser ninguém? Ninguém sou eu, não sabia? Quem é?
Ninguém, tia.
Tia? Ahhh... Ti-a. Então é o meu sobrinho?
E a voz modificou-se, ora engrossando, ora novamente fina. Eles não sabem que se eu quiser posso deixar alguém entrar. Eles não sabem. Mas não diga a ninguém, entendeu? Fique em silêncio. Entendeu? Sim, eu respondi. Espere um pouco. E quando eu falar, você entra.
Pode vir.
Abri a porta, e um cheiro de perfume envelhecido me tomou de chofre. Completamente fechado, o quarto era iluminado por um castiçal colocado sobre a penteadeira e por uma clarabóia que flutuava sobre a cama larga de panos pendendo no dossel, cipós e folhas estampados no tecido fino. Ao lado do castiçal, uma bacia com uma jarra e um vaso com flores que pareciam terem sido arrumadas recentemente. Isso eu pude ver quando atravessei as cortinas; entre a porta e a cama havia inúmeras cortinas, várias camadas delas, finas e encardidas, cheirando a mofo e a perfume antigo. Quando passei por elas, e cheguei à cama, pude vislumbrar, atrás das outras cortinas que a separavam da penteadeira, uma figura magra jogando perfume para o alto e espalhando-o pelo corpo. A tia louca.
Pode sentar-se, falou. Pode sentar-se, meu menino. Então você é o filho da minha irmã? Sou. Que bom, eu sempre quis revê-lo, sabia? Você não se lembra de mim, não é? É claro que não se lembra, era um bebê, eu coloquei você nos braços, passeamos até as mangueiras. Dei banho em você! Você não se lembra, não é? É claro que não.
Falava e continuava a espalhar o perfume e eu me perguntava se aquele frasco não ia secar. Então parou e, lentamente, recomeçou a dança que eu presumira, abrindo os braços envoltos num lençol, passos para os lados, passos para a frente e para trás, sempre em frente ao espelho da penteadeira, as velas lançando sobre ela contornos iluminados, e eu envolto na sua sombra.
Não.
Não gosta? Por que não gosta? É tão bom, sou algo inteiro quando danço. E quando danço e canto, porque eu crio a música, eu sou a música. Dá para entender? É claro que não dá. Ah, se pudesse entender... E virou-se para mim, com os braços abertos, andando lentamente, imersa em sombra, nós dois dividindo a mesma escuridão, apenas um halo de luz envolvendo-lhe os panos. Chegou à minha frente, encostando-se às cortinas, e deixou cair o lençol que lhe cobria os braços e, muito longo, enrodilhava-se em seu corpo.
Passando pelas cortinas, chegou à minha frente, o castiçal iluminando-lhe um dos lados, e ficou parada, a cabeleira grisalha, os olhos rodeados de azul, os lábios vermelhos, e cicatrizes deixando-se perceber sob o pó espalhado nas maçãs do rosto, eu poderia cavar sulcos naquela face, construindo estradas com minhas unhas se as deslizasse sobre a maquiagem.
O peito, muito magro, era de uma palidez amarelecida, exangue como os dedos das mãos, e também os dos pés, voltados para dentro como se quisessem agarrar o próprio chão.
Deixou cair o pano, desenrodilhando-o e lançando-o para trás, e desceu os braços lentamente até cobrir o sexo. Depois, virou-se e recomeçou a dança. Suas costas, amarelecidas como o peito, também tinham cicatrizes, e também as nádegas, magras e flácidas.
De repente, soltou um grunhido, voltou-se e caminhou até a cama. Ajoelhou-se sobre ela. Eu tentei levantar-me, mas me pegou pelo braço, obrigando-me a ficar. Suas mãos eram finas e gélidas, e os olhos, que me olharam emudecidos, estavam ressequidos. Engatinhou sobre o colchão e deitou-se de bruços, as pernas abertas. Chamou-me. Por favor, disse. Vem.
Como eu não me movesse, deu um salto rápido e foi ao castiçal, apagando-o. Aproximou-se de mim e tirou lentamente minha camiseta e meu calção, beijando meu rosto e minhas pernas, meus pés. Em seguida, deitou-se novamente e pediu: vem. Estendeu a mão, tocou no meu ombro e me puxou lentamente, arrumando-me sobre seu corpo. De bruços, estendeu os braços para trás e me apertou, empinando as nádegas e gemendo. Virou-se e pôs o rosto nas minhas pernas, subindo por elas, a boca arfando, de língua estendida, movendo-se sôfrega até enfim moderar-se, agora calma e contemplante, rodeando-me, lambendo-me, aspirando-me. Ela me sugava. Olhando incessante para seu rosto, eu estremeci. Então afastou-se, deitando-se de novo, agora de costas, abrindo as pernas e me puxando para perto e me esfregando contra seu corpo. Desequilibrei-me e tentei me apoiar, quando toquei em seu pênis. A tia soltou um grito-lamento, correndo para apanhar o pano que havia jogado no chão. Enrodilhou-se novamente, em meio à luz tênue que a clarabóia projetava no quarto, e, chegando ao castiçal, acendeu-o e recomeçou a dança, espalhando mais perfume a seu redor, espalhando-o pelo lençol. Olhou para mim obliquamente, com languidez, e deu seus passos, para os lados, para a frente, para trás. Em seguida, estacou, mirando tristemente as pernas, por onde escorria um fio amarelo que descia até seu pé, criando um leito que se alargava sobre o piso, espalhando-se até infiltrar-se em algumas fendas. Peguei minhas roupas e saí do quarto, passando antes pelas cortinas, de costas, observando as sombras das flores, antúrios?, lançadas sobre o teto, as paredes, a imagem daquele ser etéreo grudando em mim, esvanecendo-se por trás dos panos, até quase se dissolver quando cheguei à porta, uma figura recortada em negro no halo de luz lançado pelas velas, umas línguas de fogo que vi quando depois adormeci, os mulungus esbraseados, girando, e a tia louca entre eles, de pernas abertas, parada sobre galhos caídos no chão, em chamas, queimando-lhe a carne em gozo e dor.
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Casaram-se Numa Quinta-feira
Esperara pelo momento muitíssimo, como deveras também se esmerara em se preparar: a melhor loção, o melhor calção folgado de seda, a cueca de algodão. O tônico que tomara durante uma semana, adocicado e ferruginoso. Levava o gosto de metal na boca mas não se importava: era investimento.
Chegara inclusive a se sentir realmente mais forte. Até certos exercícios fizera, como o de interromper a ejaculação quando quisesse — modo de prolongar o prazer até o momento alto e último. Deitado no quarto, na cama de solteiro, via milhares de bichinhos nadando céleres; mas queria milhões e por isso tomava doses duplas do preparado. A esposa era bela e ele a julgava apta para o que queria: uma mãe para os rebentos. Mãe de ventre largo e braços fortes, prendada e bonita.
Passaram-se os nove meses e a filha nasceu. Tinha os olhos e a boca do pai, isso ele logo percebeu e alardeou, desejoso de tomá-la nos braços mas tendo de conter-se. Em outras ocasiões, muitas vezes a carregou, levando-a ao peito, ao ombro, sempre beijando-lhe as faces. Tinha esse costume. E se derretia intenso quando ela respondia com um abraço em seu pescoço. Beijava as mãos da menina, levantando-a, e ela dizia vou voar, vou voar.
Quando ele voltava do trabalho, entrava em casa com presentes, com chocolates. A mãe, que passava o dia nas tarefas domésticas, reclamava porque não era ele que tinha de verificar se a filha escovara os dentes direito. E muito menos era ele quem fazia a vitamina de maçã e banana para conter a diarréia quase diária. Ele resmungava, e dava as costas à mulher, e sorria para a filha, que, após alguns anos, já não brincava tanto com ele quando, cansado e desejoso, voltava para casa após o dia pesado.
Então aconteceu de ele desejar outro filho, porque o entristecia não ter o abraço no pescoço, não ter para quem levar os chocolates no fim da tarde.
Por esses dias, no intervalo para o almoço, ia para uma praça ver umas crianças brincarem. Mas não persistiu no costume, pois uma certa vez, querendo beijar os cabelos de um garotinho que corria contente, provocou um grito de uma mãe que se assustou vendo um homem estranho aproximar-se do filho dela. Ele pediu desculpas, disse que só queria beijá-lo, mas a mãe, aos gritos, ameaçou chamar a polícia caso ele, um tarado sem-vergonha, não saísse dali imediatamente!
Ele saiu. E sentiu-se enfraquecido, sentando-se apenas umas quadras depois, num banco em frente a uma loja. Teve vontade de ir para casa, não retornando ao expediente; mas demorou, porque a esposa não o atraía. E a filha estava namorando um rapaz metido a intelectual, falador de problemas sociais, uma coisa!
Após o nascimento da filha, que se dera num distante domingo — e que distante foi isso —, tentou muitas vezes outros filhos. Penetrava a mulher pensando nas crianças. Nem via o seu rosto. Não lembrava como era seu beijo — ou se alguma vez a beijara após o casamento. Era colocar-se sobre ela, sôfrego, e ejacular, o rosto enfurnado ao lado de sua cabeça.
Talvez o fortificante não fizesse mais efeito. Se bem que realmente não o tomava mais como antes. E, mais exato, nem mais o tomava. O último frasco, que deixara no armário, manchando a fórmica com um halo escuro, fora jogado fora pela filha, que dissera do prazo de validade vencido. Dissera isso. e ele achou que os olhos dela já não eram assim tão parecidos com os seus. E nem a boca, agora empastada de batom fortíssimo.
Uma noite, a esposa tocou o seu peito e perguntou o que estava acontecendo de errado. De errado?, ele perguntou, afastando a mão dela. De errado?, perguntou novamente, jogando-a na cama e deitando-se sobre ela. Abriu-lhe a boca e enfiou nela a língua fedendo a cerveja. Foi violento e rápido. E, saindo de sobre a mulher, que chorava, chamou-a de estéril.
Decidiu retirar-se. Chovia e ele pensou que fosse um bom prenúncio. Apalpou os bolsos da calça, tirou o dinheiro, contou-o e caminhou por algum tempo até uma casa de que já ouvira falar. Durante a caminhada, abrigava-se sob as marquises das construções, deixando-se molhar vez ou outra, oferecendo a nuca para a água que se derramava débil e escorria por sob a gola da camisa, descendo pelas costas. Ela o molhava e ele se sentia revigorado, ou como se talvez escorresse com a água, diluindo-se pela calçada até descer para o meio-fio, fragmentado em meio ao caudal. Já quase se desesperava, quando se deparou com a casa.
Subiu as escadas e escolheu a mulher que lhe pareceu ter os traços melhores. Antes de entrar no quarto, foi a um banheiro no corredor. Lavou o rosto com um sabonete ressecado que estava sobre a pia, penteou os cabelos, lavou a boca, esfregou a língua com o mesmo sabonete ressecado, apertou o cinto da calça — murchando a barriga —, enxugou os cabelos e saiu rumo ao quarto com o rosto pálido. Pediu à moça que apagasse a luz. E na hora de colocar o preservativo, após rasgar o envelope, escondeu-o fingido sob o colchão.
Galopou-a bravio. E quase sem intervalo galopou-a de novo, silencioso. Durante todo o tempo manteve os lábios cerrados. Inchava o rosto e prensava os dentes. Resfolegava. E quando pensou que fosse chorar levantou-se e colocou todas as suas notas na mão da mulher, que, assustada, parecia ter percebido que ele se derramara dentro dela.
Já de pé, arrumando a calça que não tirara por completo — seus olhos ardiam! —, ele voltou-se e tocou o ventre da mulher e disse para ficar calma. Saiu rápido antes que ela pudesse dizer alguma coisa. E ela nem disse, deitada estendida, a fenda aberta e o dinheiro na mão.
Meses depois — ia trabalhar —, ele se postou em frente à casa. Viu a mulher grávida e sorriu, contente do filho que ela carregava. No dia seguinte a ter se deitado com ela, mandara uma caixa com dois enxovais: um rosa, outro azul. E um maço de notas enroladas em uma fita vermelha. Junto com eles, um bilhete onde dizia que não se preocupasse, porque ele cuidaria.
No oitavo mês, procurando-a aflito porque não a vira mais — largara do trabalho e resolvera ir à procura dela antes de ir à casa dormir —, soube que havia sido expulsa porque era uma tola que não dava para mais ninguém e viam que ela recebia dinheiro de um aí mas não repartia porcaria nenhuma e só dava despesas e tinha embuchado e assim não podia ser: Foi Embora! Ele deu um murro na senhora que o atendeu, fazendo resvalar a rosa de plástico que ela trazia no cabelo amarelado.
Saiu da casa e andou durante toda a madrugada e todo o outro dia até ao anoitecer. E entristecido nem foi à festa da filha, que completava dezoito anos naquela noite de chuva agora estiada.
Saiu e se acostumou com o estar na rua. Sentou-se no meio-fio, ficou observando-se em uma poça formada à sua frente. Mirava-se, quando a água em dardos voltou a jogar-se sobre ele, estilhaçando a poça e borrando a sua imagem. Levantou o rosto, apertou os olhos, estremeceu. A sua face doía. E quando pensava em levantar-se, logo desistia.
Deixou-se ficar.
sábado, 10 de outubro de 2009
Flamor
Era uma moça num conjunto azul e rosa de estampas. Estava sentada no banco da praça, quando passou à sua frente um rapaz bonito e perfumado que lhe causou uma sensação de como se ela dissesse: “como ficar impassível diante do belo?”.
Mas não foi isso o que ela disse; foi o que ela sentiu. E o que saiu de sua boca foi apenas o seguinte: “Ai”.
E no entanto não se pode dizer apenas; não, não se pode, porque ali, no “ai”, residira toda ela. Fora um “ai” denso e vibrante, e fora como se a moça se sublimasse em palavra.
Era manhã e domingo; e o dia era um ovo. Ela se encostara à janela: contemplava o momento e achava que tudo era imenso e carecia de cuidados porque poderia se quebrar, poderia tudo se esvair e por isso devia cuidar, o dia era dela. E impressionou-a a grandeza de tudo. E lembrou-se do sítio e de como, lá, as tardes eram suas, mas as manhãs eram de sua mãe e as noites eram do irmão mais novo; mas agora era domingo e o dia era dela e parecia um ovo e por isso devia cuidar. No entanto, não sabia explicar o que sentia, e quando insistia nisso começava a ficar cansada porque era inútil qualquer tentativa. E decidia então ficar estática; e sufocava-se.
A patroa lhe dera folga, e ela poderia aproveitar seu primeiro final de semana — tinha chegado à cidade havia apenas três dias e liberaram-na porque a praça ficava em frente ao prédio. Podia descer; mas não demorasse.
Três dias. Até banho de banheira tomara, no segundo dia, quando os patrões saíram à noite: ao fim do banho, quebrou o vidro com as bolinhas coloridas e perfumadas de dissolver na água; limpou tudo e pegou um frasco cheio, tirando dele duas bolas que jogou no vaso sanitário; deu descarga e colocou o vidro novo no lugar do velho; e extasiou-se. Sim, porque até sua roupa ficara cheirando e também o cabelo ficara cheirando, e foi daí um contínuo respirar-se. Mas a lembrança do pasto não lhe saía do nariz. Mesmo assim, na manhã após o banho, fora uma outra: acordou-se esquiva, andando pelos cantos, inspirando forte como se para sugar todo o perfume que, tinha certeza, devia estar inundando a sala, a cozinha, os quartos, ai meu Deus!
Em verdade, acordara-se afoita, indo rápida ao banheiro: rituais frente ao espelho, puxou o cabelo para cima e prendeu-o no alto— vira a atriz da novela com uns cachos sobre a testa —, os cachos desabando; colocou batom, e seus lábios se lhe afiguraram como uma ferida aberta, e não soube se devia achar triste ou engraçado aquilo de lábios-ferida, mas o vermelho a fascinava: fremia.
Descera até à praça: escolheu um banco, sentou-se, colocou os cotovelos nos joelhos, apoiou o queixo nas mãos e ficou olhando uma árvore engraçada que, com seus galhos, era uma pessoa dançando de braços abertos. Olhava a árvore-pessoa e ria dela, quando um rapaz passou e de repente ela deixou de sentir o cheiro de pasto: o moço era muito perfumado; perfumado e bonito. Estava de calça e sem camisa, não pudera ainda ver seu rosto, mas o imaginava belo e belíssimo. Sentiu-se toda atraída e foi quando se deu aquele momento derretido de ela esticando o corpo e gemendo. Abriu a boca e seus olhos diminuíram sofridos, o nariz dilatou-se, as mãos suadas apertaram as pernas, a boca encheu-se d’água e ela levantou-se. Quis dizer que ele era um tudo e ela se diluía
Andou atrás do rapaz, um andar rápido e absorto. Parou, porque sentira que algo grandioso iria acontecer.
O moço olhou para trás e levantou a mão.
A moça pensou que fosse com ela e sorriu. Já indo levantar a sua mão, também, ensaiou uma corrida, quando um senhor a ultrapassou e foi ter com o rapaz.
Para não perder o gesto e a corrida no ar, procurou algo no chão, encontrou uma flor e abaixou-se para pegá-la. Beijou-a como se fosse a barriga daquele moço.
Permaneceu olhando-o, lenta, e pensou, não com estas palavras, mas com estes sentimentos, que, assim como se embevecia diante de uma flor, de uma montanha, passando tempos a olhar, poderia ficar assim diante do homem. Ele era tão mais bonito, e se movia, e quando se movia, os músculos endureciam. E era lindo.
E ela quis possuir aquela beleza; mas percebeu que não poderia, porque ele seria sempre ele. E ela seria sempre ela.
Desejou então que ele a respirasse, quis evolar-se. Fechou os olhos, para melhor querer se jogar a seus pés e desaparecer e sugá-lo, mas já tinha certeza de que nunca seria feliz, porque nunca o teria, sendo sempre dois. E se o sugasse, ele acabaria.
E foi então quando pensou em ser um açude para tê-lo dentro dela, envolto por ela. Entraria de roupa e esta seria encharcada aos poucos, até ele se molhar. Mergulharia. E ela o envolveria. Mas seriam ele e ela ainda distintos.
Virou-se de olhos ainda fechados. Abriu-os. Resolveu voltar para o prédio.
E naquele instante de passo lento, por um tempo ainda voltando o olhar para trás, decidiu dolorosa que aos domingos pela manhã iria até à praça e procuraria o rapaz ou outros de tamanha beleza. E ficaria embevecida deles. E os quereria por serem tão belos e não os poderia ter, aqueles de belezas suas e tão fugidias.
E quis dizer seu próprio nome duas vezes: “Luzia, Luzia”. E quis mais, mas receou, porque foi estranho falar o nome e se cristalizar à frente, vendo-se tão nítida justo naquele instante em que sentiu que desde então sempre sua vida seria um constante morrer.
E começava já a sua morte.
Mas não disse isso; apenas — apenas? — gemeu longamente: “aaai”. E entre paredes apertou o corrimão, parando num breve frenesi, misto de temor e gozo, porque lhe pareceu numa quase transparência ter ouvido uma notável primeira rachadura na casca do ovo.
E teve medo.
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Não é Tempo de Maçãs
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
A Ceia
Eu em cima da mesa me masturbava em frente à pintura da cigana seminua. Ela, deitada num divã, tinha uma das mãos acariciando o bico de um dos seios, enquanto a outra se enfurnava sob o pano púrpura, eu imaginando-a mexendo nos pêlos até se umedecer entre o sexo que me extasiava. Eu me masturbava e gemia, quando ele chegou à sala e gritou comigo, mandando-me descer.
Retesei-me. E enquanto com uma das mãos segurava o pequeno pênis endurecido, com a outra fiz um gesto de dança no ar, baixando-a lento.
Voltei-me para ele, numa continuação da dança, o olhar duro. Fiz um bico provocador, abotoando a boca. Lancei-lhe um beijo de deboche. E bruscamente puxei para trás a mão que segurava o pênis, exibindo-o duro e fremente.
Ele me pegou pelo braço, fazendo-me descer da mesa. Apertou-me, empurrando-me para baixo, e disse que contaria a meus pais quando eles voltassem do cinema. Dizendo ainda que daquela vez eles iam saber a peste que tinham dentro de casa.
Se você falar, vai se arrepender, eu disse entredentes e afastei-me de suas mãos. Levantei-me, indo rebolando ao banheiro, um sorriso estampado na cara e em todo o corpo que agora gargalhava do velho que tremia.
Pude ver que ele estava muito nervoso, quando passei pelo espelho e parei, fixando nele o olhar. Estático, apenas olhava-me com uma expressão que ainda hoje não sei precisar se era de ódio ou dó. Fixei-o e, dando um grito zombeteiro, corri para o banheiro.
Demoraram-se alguns minutos, quando ele veio à porta e falou, baixo: Hoje eu conto tudo.
Nesse momento, tive medo. Por instantes, fiquei confuso. Mas logo me acalmei, apertando os olhos em meio à minha brilhante idéia: encostei a face na parede e, com força, esfreguei-a em um movimento vertical até me ferir. Quando a pele começou a arder, prensei os dentes e esfreguei o rosto com ainda mais força. Por fim, joguei a testa contra o vaso. Sorri, quando senti o pequeno caroço se pronunciar. Limpei a parede avermelhada de um pouco do sangue dos arranhões, saí do banheiro, vesti-me e passei cuidadoso pelo quarto do velho, para ver se ele dormia. Voltei à cozinha, apaguei a luz e fui para a minha cama. Não sem antes me olhar no espelho, orgulhoso. Orgulhava-me; e um sorriso imperscrutável esboçou-se. Idêntico ao de quando joguei o rato na cama do velho, eu me contendo para não rir quando — eu já havia voltado para meu quarto — ele gritou, pedindo socorro porque alguma coisa o tinha mordido. Meu pai e minha mãe correram para ver o que havia acontecido, e precisaram abraçar o velho, quando o viram sentado na cama, os olhos esbugalhados olhando descrentes para a massa vermelha esmagada nas mãos. Eu apareci na porta e falei, quase inocente: Vô... O que foi, vô? Mas ele não respondeu; sentado nu sobre a cama, meu pai tentando fazê-lo parar de tremer, minha mãe cobrindo-o com um lençol, as pernas dele magras e negras, quase branco apenas o tufo de pêlos que pude vislumbrar, um acinzentado emoldurando o sexo murcho.
No outro dia, à mesa do café, ele segurou minha mão — minha mãe e meu pai estavam na cozinha —, segurou minha mão, apertando, e perguntou incisivo: Foi você? Mãe!, eu gritei. Assim que ela apareceu, ele me soltou. Foi quando me senti poderoso. O que foi?, ela perguntou, aproximando-se. E eu respondi, doce: Mãe, frita um ovo pra mim?
Ela virou-se. E eu, olhando nos olhos dele, quis sorrir. Mas chorei.
Não sei o que se passou na cabeça dele nos outros dias, mas pareceu-me ter esquecido o rato. E também o escorregão que tinha levado uns dias antes porque eu havia passado cera na entrada do quarto, fazendo ele tombar e bater com a cabeça no chão. E o rapé. Que eu tinha misturado com um pouco de pimenta-do-reino moída.
Ele estava calmo, agora. E ficávamos brincando à tarde. Ele desenhava as listras no papel, e colocávamos os caroços de feijão nos pontos até vermos quem conseguia trancafiar o outro. Mas na noite em que eu subi à mesa, percebi: ele estava decidido a falar.
Fui à cama. Deitei-me e esperei meus pais chegarem e irem dormir, mas não preguei o olho. Pela manhã, ouvi os cochichos na cozinha. Ele não presta, escutei meu avô dizer. Respeite o meu filho, disse meu pai. Respeite o meu filho, ou você vai pra fora desta casa. Mas eu sou seu pai, o velho falou, a voz enrouquecida. E ele respondeu: Mas ele é meu filho. E nesse instante minha mãe gritou que não era possível ser verdade aquilo, eu era apenas uma criança!
Chamem ele!, meu avô disse. Chamem, disse novamente, baixando a voz. Perguntem na minha frente se o que eu disse é mentira. Perguntem! Não é possível que ele vá mentir.
Foi quando chorei. Dei um primeiro gemido bastante alto e depois baixei o som, tremendo o corpo sobre a cama, eu inteiro enrodilhado na coberta. Enrodilhado e soluçando, uns acessos de tosse ainda mais fortes quando meu pai chegou ao quarto. Entrou e retirou ríspido o travesseiro de sobre minha cabeça. Até hoje não esqueço sua cara de terror quando olhou para mim. Colocou-me nos braços, eu ainda chorando num exagero que aumentou ainda mais quando passamos pelo espelho e pude ver o rosto inchado, a testa arroxeada e a face cheia de arranhões.
Ele me bateu!, eu gritei. Ele me empurrou, pai, e esfregou a minha cara no chão.
Só parei de chorar horas depois, quando saí do hospital. No meio da confusão, minha mãe puxou meu pai pelo braço, e me levaram para fazer uns curativos. Saímos, e pude ver meu avô olhando para mim, numa expressão embrutecida, movendo a cabeça para os lados. Parece até que vi uma lágrima descer pelo seu rosto encovado.
Após aquela manhã, meus pais não falaram mais com meu avô, que quase não saía do quarto, a não ser para ir ao banheiro. Ou para cheirar seu rapé, sentado no quintal.
Minha tia, que agora ficava em casa enquanto meus pais iam trabalhar, disse a ele: Tá vendo, pai...? O menino quer jogar. Tá vendo?
Ele mexeu a cabeça. Foi ao quarto, pegou um pedaço de papelão e levou-o à cozinha, com lápis e régua na outra mão. Sentou-se e fixou na mesa o rosto assombrado. Levantou-o, olhando-me enquanto eu me sentava, acompanhando meus gestos, acompanhando meu olhar sobre o pote de feijões que eu depositava sobre a mesa, ao lado do tabuleiro que eu já havia riscado.
Olhei para ele, meneando a cabeça para que começasse a partida. Ele colocou no chão o papelão, o lápis e a régua. Tocou com as pontas dos dedos o tabuleiro que eu havia desenhado, forçando-as nas inscrições. Levou ao pote a mão em veias, retirou alguns feijões, colocou-os na outra mão e depositou um deles sobre a madeira entalhada do tabuleiro. Começamos o jogo de um tentar prender o outro.
Percebi que ele não se empenhava em ganhar. Mas não dei valor a isso; com alguns lances, pude tê-lo entre meus feijões, meus grãos cercando-o. Coloquei o último deles com um gesto todo solene. E disse, baixinho: Ganhei.
Quando vi seu olhar inexpressivo, meus olhos quiseram chorar. Eu digo: quase chorei. No entanto, contive-me. E tocando o último feijão que havia colocado, disse mais uma vez, agora me aproximando de seu ouvido: Ganhei.
Foi quando meus pais chegaram em casa e se aproximaram da cozinha com um representante do asilo para onde iam levar o velho — eu tinha ouvido a conversa pela manhã. E outra vez articulei a palavra para ele, agora sem som, apenas movendo os lábios, afastando-me dele ao mesmo tempo em que abria os olhos como se para fazê-lo compreender melhor o que eu lhe dizia: Ganhei. E à frente de todos, lento e agora deixando os olhos se encharcarem, à frente de todos eu enlacei meu avô pelo pescoço, aproximei meu rosto lentamente e, fechando os olhos para que uma lágrima resvalasse, com aparente profundo amor beijei-lhe a rendida face.


